Gemma Bovary – HQ’s

Gemma Bovary – HQ’s

by Isa Guerra

Hello Prettys ;)

Uns dias antes do carnaval achei pela praça perto de casa uma feira de livros, milhares de títulos muito baratinhos e um verdadeiro oásis pros meus olhos, nem preciso dizer que saí de lá um bocado mais pobre. Ignorando essa parte chata…

Encontrei um stand muito legal com um acervo bem vistoso de graphic novels e outros HQ’s enquanto procurava alguns livros do Salinger, aquele cara que escreveu o Apanhador no Campo de Centeio.

Rodei por todas as barraquinhas de livros, tão vistosas e com preços bem felizes mas não encontrei o que procurava,até então nada de Salinger, e foi aí que resolvi parar no stand de HQ’s que havia encontrado mais cedo. A primeira coisa que me chamou atenção foi um livro azul escuro bem fúnebre com uma loira de olhos espertos na capa, como já havia desistido de encontrar Franny e Zooey comprei esse outro livro e mais dois, dos quais outro dia conto pra vocês.

Quando peguei o livro senti o material na mão, boa qualidade, capa resistente, levemente aveludada, folhas firmes e amareladas, enfim, gostei mesmo dele, e fui lendo pela rua, o título me lembrava outro livro do qual pude usufruir anos antes, esse livro se chamava:

Madame Bovary de Gustave Flaubert (1857)

Esta dama chamada Emma foi mais que uma promíscua, ascendente social com sonhos infantis relatado por um realismo duro, Flaubert contou sobre obcessão daquela mulher que aos olhos das outras era apenas uma boa novela viva e devoradora de maridos alheios e dos outros uma obra rara a ser tocada, desejada e consumida por ser uma combinação explosivade beleza e inteligência com uma boa dose de promiscuidade.

Flaubert consome-se no realismo quebrando os paradigmas romanticos-literários da época com um livro altamente descritivo e um pouco cansativo para leitores menos experientes ou acostumados com a temática, chocando os leitores da época com críticas à burguesia provinciana francesa indo contra os costumes do casamento e do clero narrando nesta obra fatos até então considerados violentos tabus sociais.

Enquanto Flaubert autor da primeira obra desconstrói a idéia de mulher romântica e dá luz aos fatos que ocorriam porbaixo dos panos por toda a sociedade francesa da época, Posy Simmonds constrói um drama atual com enredo bem adaptado de um clássico de 1857 nos deixando livres para de início traçar linhas entre o HQ e o livro que mais tarde serão postos de lado, se diferenciando a quem a crítica é feita, Simmonds transpõe o choque que Madame Bovary causou em sua época e país para hoje na Inglaterra mirando sua acidez contra os jovens da classe média urbana londrina e os Yuppies terrivelmente pedantes.

Falando do graphic novel;

Posy simmonds traz a público com traços assustadoramente simples e apaixonantes a história de Gemma Bovery, uma inglesa irremediavelmente sexy e chateada com o mundo que se casa com um homem divorciado. Entre altos e baixos do seu humor (inglês) flutuante ela leva seu marido-entediado-e-sem-sonhos para viver numa vila francesa interiorana onde pretende realizar seu capricho da vez, se afastando da ex mulher de seu marido e suas crianças melequentas, uma londres suja e violenta e comida ruim.

Tal como vingança contra o mundo e um sonho de contos de fada para sua vida, Gemma como Emma traçam caminhos tortos e com eles se decepcionam. Do começo ao fim ambos os livros são ótimos, porém indico aqui como boa viciada em HQ’s a publicação de Posy.

Toda a obra é narrada pelo Padeiro Flaubert omônimo ao autor de Madame Bovary, livro que obviamente inspirou a Graphic Novel. Certamente não dá para falar de um sem citar o outro, porém são almas independentes e livres entre si possibilitando a quem se deu o trabalho de ler o clássico francês embarcar mais profundamente na publicação de Posy, viajando na narrativa de Flaubert-Padeiro que se torna um verdadeiro obcecado pela mulher do vizinho, que o lembra tanto a anti-heróica dama da corte.

Com desenhos lindos de traços limpos e marcantes, citações a arquitetura e cultura, Gemma Bovery merece ser lido com atenção a cada quadro pois ao passo que as semelhanças aproximam as obras, cada pequena diferença deixa um comichão dedúvida sobre toda a trama.

Tendo ótimas críticas em vários jornais do mundo (tal como Ny times, Daily Mail, The Observer…) Gemma Bovery se torna uma obra indispensável para os cheiradores de gatinhos de plantão e traças de sebo e mais um título indispensável para minha coleção.

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